A avaliação do potencial reprodutivo feminino deve integrar a consulta ginecológica de rotina. Conheça os principais fatores que influenciam a fertilidade, os exames para avaliação da reserva ovariana e a importância do planejamento conceptivo.

A importância da avaliação do potencial reprodutivo feminino na consulta ginecológica de rotina
O relógio biológico de sua paciente está correndo. Seu atendimento acompanha esse tempo?
Quando se pensa sobre o modelo ideal de uma consulta médica e do tipo de relacionamento médico-paciente que deve existir, não é incomum vir à mente a forma de trabalhar do ginecologista. Médico especializado na saúde feminina, o ginecologista inicia sua atuação já no início da adolescência da mulher, cobrindo todas as demais fases da vida de suas pacientes, e zela não só pela saúde ginecológica, mas também pelos cuidados necessários para a manutenção da saúde geral de tal grupo.
O cuidado ginecológico de rotina é o principal e mais constante contato da mulher com o sistema de saúde ao longo de sua vida. Apesar dessa atenção tão valiosa, pautada especialmente na promoção da saúde, no rastreamento de doenças ginecológicas e na orientação contraceptiva, existe uma oportunidade importante ainda pouco explorada: a fertilidade sob a perspectiva da orientação conceptiva.
A falta de atenção a esse tema pode ser explicada pela realidade relativamente nova que envolve a saúde reprodutiva feminina, marcada pelo adiamento cada vez mais frequente da maternidade. Esse comportamento é consequência direta do empoderamento da mulher e de sua ascensão no mercado de trabalho, bem como de décadas de uma política de saúde pautada nos cuidados contraceptivos, que proporcionam liberdade de escolha e contribuem para a cultura de postergar a primeira gravidez.
Nesse novo cenário, cabe ao ginecologista geral, que conhece o histórico clínico, familiar e os projetos de vida de cada mulher, trazer à tona reflexões sobre o tempo fértil e os fatores que impactam negativamente a fertilidade.
Situações como sintomas de endometriose, irregularidade menstrual, histórico familiar de falência ovariana prematura e desejo de maternidade após os 35 anos devem ser abordadas nas consultas de rotina, preferencialmente ainda antes dos 30 anos.
Necessidade de conhecer o potencial reprodutivo
Com apenas uma conversa sobre o desejo de maternidade e a existência de algum planejamento reprodutivo futuro, conduzida de maneira natural e acolhedora durante a consulta, o ginecologista consegue compreender melhor os anseios, medos e expectativas de suas pacientes.
Nesse momento, é possível oferecer uma avaliação laboratorial e de imagem básica, complementada quando necessário por exames específicos para investigar queixas e achados clínicos.
Apesar da complexidade do trato reprodutivo feminino, alguns testes simples possibilitam avaliar a reserva ovariana, indicando sua compatibilidade com a idade da mulher. Da mesma forma, uma avaliação hormonal por meio das dosagens de FSH, LH, estradiol e hormônio antimülleriano nos primeiros dias do ciclo menstrual, associada à ultrassonografia transvaginal com contagem de folículos antrais, fornece informações valiosas sobre o potencial ovariano.
Esses dados oferecem mais subsídios para abordar a questão da fertilidade no consultório e permitem orientar a paciente de forma individualizada.
Ao conversar sobre fertilidade com mulheres jovens, o ginecologista lhes confere autonomia sobre esse tema e oferece ferramentas essenciais para que possam tomar decisões conscientes sobre o próprio futuro reprodutivo, de acordo com os resultados obtidos.
Por outro lado, a ausência dessa abordagem durante a idade reprodutiva pode resultar em impactos significativos para o bem-estar social, emocional e conjugal de mulheres que desejam constituir família, especialmente quando perdem o melhor momento para a concepção e se deparam com dificuldades relacionadas à infertilidade.
Dessa forma, é recomendável que os ginecologistas gerais conheçam minimamente os métodos de avaliação do potencial reprodutivo feminino e as principais técnicas disponíveis para preservação da fertilidade.
Nesse contexto, a criopreservação de óvulos destaca-se como o método de maior relevância para mulheres solteiras que desejam preservar a fertilidade para o futuro. Já o congelamento de embriões é uma alternativa importante, especialmente para pacientes que possuem parceiro e desejam adiar a gestação.
Passou o tempo em que o ginecologista geral deveria preocupar-se apenas com a saúde feminina e com o planejamento contraceptivo. As circunstâncias evoluíram e as demandas das mulheres em idade reprodutiva mudaram.
Ao assumir um papel ativo também no planejamento conceptivo, o ginecologista oferece à mulher contemporânea um cuidado mais completo, preventivo e alinhado às suas necessidades e projetos de vida.
A ginecologia evoluiu. Hoje, oferecer um cuidado completo também significa conversar sobre fertilidade e planejamento conceptivo durante a consulta de rotina.
Autor: Dr. Daniel Suslik Zylbersztejn
Coordenador Médico do Fleury Fertilidade.
A avaliação precoce da reserva ovariana pode auxiliar mulheres que desejam postergar a maternidade a tomar decisões mais conscientes sobre seu futuro reprodutivo.
